José Ruben de Alcântara Bonfim foi presidente do Cebes de 1976 a 1979.

Entrevista realizada em 2009.

Cebes – José Ruben, como fundador do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes), você deve ter muita coisa para nos contar dentro do Projeto Memória. Como foi o começo do Cebes, a sua participação nesse primeiro momento e um pouquinho dos antecedentes da sua história até chegar ao Cebes?

José Ruben – Inicialmente fiz o curso secundário no Colégio Militar do Recife, porque meu pai era sargento e tinha direito de levar os filhos para estudar no Colégio Militar. Fiz, então, o exame de admissão e comecei os estudos. Fui aluno fundador do Colégio Militar do Recife. Sempre fui um aluno destacado, ganhei várias medalhas, desfilava comandando a tropa de alunos, enfim… Nunca me encantei com isso e decidi ser civil. Não havia possibilidade de fazer medicina. Fiz vestibular para engenharia e fui bem aprovado, mas tive uma crise de existência, digamos assim, no primeiro ano da faculdade e só cheguei a frequentar o primeiro semestre, pois tranquei a matrícula e resolvi fazer medicina; do que não me arrependi. Em 1968 eu comecei a faculdade de medicina e a luta política.

Cebes – Militava em algum partido?

José Ruben – Não, eu não era militante em nenhum partido! Eu já entrei, em 68, fazendo greve para a ampliação de vagas. Os estudantes mais ativos, influídos naturalmente pelos partidos da época, o PCB (Partido Comunista Brasileiro), a AP (Ação Popular) e o PCdoB (Partido Comunista do Brasil), lutavam pela ampliação de vagas. Em abril de 68, começamos essa greve que durou aproximadamente uns 30 dias, ou mais. Foi nessa ocasião que conheci José Augusto Cabral de Barros, que viria a ser também um dos fundadores do Cebes. O conheci num acampamento na frente da Reitoria, que por sinal era do lado do IV Exército em Recife. Quando tinha 15 anos, eu me interessava muito por análises políticas, porque vivia num regime de caserna. Então, em 64, a partir do golpe, comecei a adquirir essa consciência política porque tive vários professores cassados, professores que eu gostava, no Colégio Militar. Recordei-me agora de um livro que me encantou profundamente, que, aliás, já procurei muito nos sebos e não encontrei ainda, chamado ‘O pão, o feijão e as forças ocultas’, de Jocelyn Brasil cujo belo prefácio é do Gondin da Fonseca. É uma grande lição de política, que foi escrito em 1963. Gondin da Fonseca vivia no Rio de Janeiro e era um grande panfletista.

Cebes – Quando exatamente você começou na militância política?

José Ruben – Comecei a minha militância política antes de entrar na faculdade, quando era estudante do penúltimo ano do curso secundário, quando conheci o Grupão. O Grupão era o grupo de jovens que viria a se tornar a Ação Popular. Minha atividade política não foi uma atividade puramente estudantil. Participei de uma operação social chamada Operação Esperança, de Dom Hélder Câmara. Nós fazíamos um trabalho de orientação educativa onde, inclusive, fui monitor de alfabetização, usando o método Paulo Freire. O projeto não foi adiante porque a repressão em Pernambuco foi muito dura. Começou por volta de 1966 e naturalmente agudizou-se com o AI-5 (Ato Institucional nº 5), até que, em 1969, umas das primeiras manifestações de repúdio à ditadura foi uma célebre marcha fúnebre, pois estávamos levando o cortejo fúnebre do Padre Henrique Lins Pereira Neto, que fora assassinado pelos órgãos de repressão. No mesmo período de seu atentado, também foi vítima Cândido Pinto de Melo, meu colega na faculdade de engenharia. Cândido ficou paraplégico e depois de muitos anos conseguiu terminar o curso de medicina. Voltei a ter contato com ele nos anos 80, em São Paulo, onde ele tornou-se um brilhante engenheiro biomédico. A Ponte da Torre, que é uma das mais tradicionais pontes do Recife, tem o nome dele.

Nos dois primeiros anos de medicina quase fui reprovado, porque estava na rua o tempo todo. Tudo o que vocês puderem imaginar que um ativista ousado pudesse fazer, eu fazia! Desde enfrentar polícia em cavalos até as pichações. Em 1968 eu já era militante da AP, era da base da AP, mas não era no movimento estudantil. Fazia parte da base de trabalho de bairro, de trabalho comunitário, ligado à Operação Esperança. Naturalmente fui perseguido por isso. Com o AI-5, os movimentos sociais e estudantis tiveram um refluxo muito grande, mas, mais tarde, em 1973, quando a perseguição política se acentuou, houve um massacre das lideranças da Esquerda em Pernambuco. Eu tive a consciência de que algo pavoroso estava acontecendo. Um dia vi, na primeira página do jornal ‘Diário de Pernambuco’, umas 10 ou 12 fotos numa matéria de capa, onde a polícia, o DOICodi (Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna), o Dops (Departamento de Ordem Política e Social) comunicavam que tinha sido exterminada uma base terrorista. Eu olhei e percebi que conhecia uma parte deles e falei: “Poxa vida, mas que base terrorista interessante, porque são de partidos completamente diferentes!”. Quer dizer, estava em execução, naquelas semanas, final de agosto e começo de setembro de 1973, o extermínio sistemático da Esquerda.

Cebes – Como se deu a escolha pela especialidade médica?

José Ruben – Em 1970, com toda essa atividade política, social, estava me inclinando para a clínica médica, área que sempre me interessou. Mas conheci uma pessoa, de quem me tornei muito amigo, que teve uma influência muito grande na minha escolha. Falo de Guilherme Montenegro Abath, que foi um dos pioneiros do Movimento de Medicina Preventiva no País. Guilherme foi a versão brasileira, igualmente notável, do Rudolph Virchow, porque ele era patologista, neuropatologista, formado em 1955 na Universidade Federal de Pernambuco. Em 1967, 68, fez epidemiologia na Inglaterra, onde foi colega de José da Rocha Carvalheiro. Ele foi um grande professor, um grande amigo! Em 1970 decidi fazer Saúde Pública, e em 73 fui muito perseguido, porque achavam que eu era um grande dirigente e tentaram me sequestrar no Hospital Pedro II, antigo Hospital de Clínicas, em Recife. Eu percebi e consegui fugir, pois conhecia bem a Favela dos Coelhos, onde tinha feito o trabalho social, e aí eles não me pegaram (provavelmente o DOICodi). Liguei, então, para o Guilherme Abath e ele conseguiu me colocar como caseiro num convento de freiras por quase três meses. Estou contando isso pela primeira vez para um depoimento ad perpetuam. No tempo em que passei disfarçado como caseiro num convento de freiras, naturalmente não tinha contato com elas. Escrevi a minha prova de admissão à Residência de Medicina Preventiva e Social de Campinas.

Cebes – Você chegou a ser preso lá?

José Ruben – Nesse período não! Fui preso umas duas vezes, mas prisões temporárias, em 1968.

Cebes – Você conheceu David Capistrano lá em Recife ainda?

José Ruben – Não! Conheci David em janeiro de 1974, no Departamento de Medicina Preventiva e Social da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Já fiz muitos testemunhos sobre o David; alguns estão escritos, como vocês sabem. O Cebes deve muito a ele, aliás, o Cebes saiu da cabeça dele. O David, como toda pessoa com inteligência fora do comum, não tinha só o QI, a inteligência, mas a capacidade de realização. Uma das coisas mais importantes na personalidade dele era o sentido realizador que ele tinha. Ele era pioneiro, extraordinário! Vocês não tiveram a oportunidade, talvez, de conhecer esse cotidiano do David. Vocês debateram com David, estiveram em plenária, em sessões plenárias com ele, sabe, mas isso é uma outra coisa.

Cebes – Quanto à fundação do Cebes, como surgiu a ideia? Como que vocês chegaram a isso?

José Ruben – A ideia da revista precedeu a ideia do Cebes; essa é a grande verdade que precisa ser estabelecida. Para provar isso, fiz uma entrevista com o Sérgio Gomes, que pretendo divulgar na página do Cebes. O Sérgio Gomes teve uma influência marcante na história do Cebes e também foi um pioneiro em muitas iniciativas. No final dos anos 70, começo dos anos 80, começou em São Paulo um movimento de Saúde, como havia também aqui no Rio de Janeiro, para a transformação da chamada Medicina do Trabalho que viria a ser o trabalho com a Diretoria de Saúde do Trabalhador (DIRSAT). O Sérgio foi a pessoa que fez a imprensa sindical de Saúde. Ele era um jornalista responsável e um dirigente notável.

Cebes – E então vocês resolvem fazer uma revista…?

José Ruben – O David queria fazer uma revista, mas ele não tinha a menor ideia de nome, na verdade, de nada. A fixação dele era em alguma coisa chamada ‘Reforma Médica’, e isso surgiu por causa de uns textos em alemão que o Kurt Kloetzel passou para ele. ‘Reforma Médica’ era o nome da revista do Rudolf Virchow, fundada em 1848. David, então, coloca o seguinte: “Vamos fazer a revista, mas quem vai editá-la? A revista tem que ter um dono”. Então, para editar a revista, que a essa altura já se chamava ‘Saúde em Debate’ (David quem escolheu o nome) se cria o Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes), com o propósito inicial de termos uma figura jurídica, dona da revista. O fato é que Kurt Kloetzel, idealizador da revista ‘Reforma Médica’, professor na Faculdade de Medicina de Jundiaí e amigo de David, havia instigado a ideia de que a medicina tinha ficado burra com a descoberta do microscópio, porque a partir daí os médicos não perguntavam mais nada. Mandavam o sujeito cagar na latinha e fazer exame de fezes, mijar no vidrinho e fazer exame de urina ou tirar um pedaço da pele e ficar examinando lá, achando que esses procedimentos substituíam a conversa, o conhecimento do ser humano. Kurt achava que era preciso recuperar esse conhecimento anterior, então, fundou uma revista chamada ‘A Reforma Médica’, que era para ver se os médicos voltavam a perguntar, a ter uma relação com os pacientes que não fosse mandar o indivíduo cagar na latinha. Virchow tinha editado essa revista durante um tempo (na realidade foi pouco tempo), mas resolveu encerrar a revista devido às circunstâncias. Estava acontecendo a Revolução Camponesa na Alemanha, em 1848. O fato é que nós tínhamos em nossas mãos esses pedaços de papéis cedidos pelo Kurt Kloetzel.

Cebes – Num período em que a repressão era bastante grande, era muita ousadia querer fundar uma revista, circular um pensamento mais crítico, mais livre, que envolvia ainda um aspecto empresarial. A revista, empresarialmente, era trabalhada por outras pessoas?

José Ruben – O trabalho técnico de edição era feito por mim, pelo David e por colegas de São Paulo.

Cebes – Dos quais 20% constituíram o Cebes?

José Ruben – Se tirarmos dessa turma de 55, 10 colegas eram bolsistas do Ministério da Saúde, ou seja, eles não eram de São Paulo, 50% da turma, pelo menos, constituíam o Cebes e contribuíam também. Algumas pessoas eram especialistas na obtenção do apoio financeiro ao Cebes, como minha querida amiga Hitomi Hayashida, com quem voltei a trabalhar este ano na Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo. A Hitomi era tesoureira. Ela levantava fundos apenas com pessoas físicas, com doadores voluntários.

Cebes – Já tinham assinaturas da revista ‘Saúde em Debate’?

José Ruben – Sim. Nós tínhamos assinantes da revista!

Cebes – Como era a infraestrutura que vocês tinham para produzir esse material?

José Ruben – Nós alugamos uma sala. A primeira sede do Cebes foi à Rua Teodoro Sampaio, 1441. Na realidade, a iniciativa foi coletiva, mas encontrei essa sala de 20 m² que era ocupada por uma mesa enorme que compramos bem baratinho numa dessas lojas de móveis usados; aliás, tudo lá era usado, inclusive a máquina de escrever. Tínhamos mais uma mesa, uma escrivaninha, um armário de metal para pastas suspensas e um banheirinho. Consegui essa sala por um preço módico, porque nesse andar funcionava o escritório do meu primo Adeilton Bomfim Brandão. Ficamos lá pouco mais de um ano e depois fomos para o bairro de Perdizes; voltamos para Pinheiros e finalmente decidimos sair de São Paulo e vir para o Rio de Janeiro. Mas o que eu queria frisar é que, além desse trabalho de coleta de assinaturas, que era um trabalho feito por muita gente, havia pessoas que pediam pequenas doações, Dez Cruzeiros ou coisa assim. Em uma conversa com Maria Célia Guerra Medina, ela lembrou-se de uma ocasião em que ela e a Sonia Ferraz fizeram um contato com a cantora Elis Regina para apresentar o Cebes a ela. Enquanto a Elis se preparava, se maquiava no camarim dela, ela entendeu a ideia do Cebes e também fez uma doação. Imagino que outros artistas podem ter feito doações.

Cebes – David foi o grande idealizador da revista ‘Saúde em Debate’. Além da prisão, ele viveu um momento bastante difícil com o desaparecimento do pai. Você acompanhou de perto esse fato?

José Ruben – O desaparecimento do pai dele foi em abril de 1974. Eu acompanhei de perto o sofrimento, a angústia do David e da família dele. A um só tempo ele se transfigurava. Ele não se deixava envolver porque, imagine alguém que está desaparecido, no caso o pai dele, poderia até estar morto, mas ele não desistiu. Acompanhei essa historia de perto, porque naquela ocasião a Marta, a primeira filha do David, teve uma pneumonia. David era pediatra, mas o bebê foi assistido por colegas mais experientes, inclusive por um professor. Suspeitava-se que a pneumonia poderia ter sido consequência de algum antibiótico resistente às penicilinas comuns, e então eu fiquei aplicando injeções de oxacilina de 6 em 6 horas na Martinha. Nessa ocasião, o David moveu mundos e fundos, inclusive apelou ao presidente da França, apelou ao governo brasileiro, o presidente Geisel, mas tudo em vão, o corpo continua desaparecido até hoje.

Cebes – Eu queria que você falasse um pouco sobre a linha de livros. Como vocês decidiram, além de editar a revista, também editar e traduzir livros?

José Ruben – A ideia da coleção de livros, na realidade, surgiu da nossa própria atividade da revista. Não foi nenhuma concepção acadêmica, nada disso. Não me recordo exatamente de quem surgiu essa ideia. Acho que foi uma ideia coletiva editar uma coletânea de textos do Gentile. O Carlos Gentile de Melo era uma pessoa muito presente na divulgação do Cebes e ele fazia isso com muita espontaneidade. Ninguém precisava dizer o que ele tinha que fazer; ele mesmo tomava a iniciativa e cutucava a gente. Ele era um grande ativista, aliás, o maior de todos que já conheci. Então, David e eu resolvemos fazer um estudo prévio e verificamos que era uma tarefa que, se fosse feita hoje, com todos os recursos disponíveis, talvez as pessoas não tivessem feito com a rapidez que fizeram, inclusive varando a noite. Lemos e selecionamos 250 artigos e pequenos ensaios e daí saiu o primeiro livro do Gentile.

Cebes – Você poderia detalhar como foi o processo da mudança do Cebes nacional de São Paulo para o Rio de Janeiro? Já havia a descontinuidade nas revistas, uma certa dificuldade financeira, questões políticas? O fato de o Sergio Arouca estar no Rio influenciou essa decisão?

José Ruben – O Arouca, como o David, o Gentile, é um dos ícones da saúde pública brasileira. Acho que a capacidade de aglutinação conta muito e Arouca tinha essa capacidade. Nós tínhamos uma proposta de descentralização; uma proposta inovadora dos núcleos. A proposta dos núcleos começou em 1976.

Cebes – Nessa época já existiam núcleos do Cebes em outros estados como Bahia, Minas Gerais, Espírito Santo e em São Paulo já havia núcleos em municípios como Sorocaba, Campinas etc…

José Ruben – Então, havia essa efervescência, que me parece que está acontecendo hoje, também, 32 anos depois, porque as pessoas só se aglutinam para discutir algo quando elas estão extremamente descontentes ou querem realmente fazer algo melhor. Quer dizer, os desafios são de outra natureza, completamente diferentes de 32 anos atrás. Mas essa ideia dos núcleos em Campinas e tantos outros lugares é algo interessante porque a continuidade da reforma sanitária é um projeto longo, que tem que ser abrangente no sentido de apontar diretrizes. Mas, claro, isso é resultado de uma discussão generalizada.

Cebes – O que o núcleo do Cebes em São Paulo passou a fazer como atividade central depois que a revista passou a ser feita no Rio de Janeiro?

José Ruben – A partir dos anos 80, houve, digamos assim, uma redistribuição das atividades do ativismo político-social. Por exemplo: embora nunca tenha deixado de ser um ativista do Cebes, apesar de já não ser mais dirigente, inclusive jurídico, eu me engajei na fundação de outro movimento, o Mohan, que também está aqui no Rio de Janeiro em pleno desenvolvimento nacional, com uma participação política grande. O Mohan naquela época chamava-se Movimento de Reintegração do Hanseniano, que depois mudou para Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase.

Cebes – Nos anos 80 o David já não estava mais no Cebes?

José Ruben – Ele continuava, mas com uma atividade política. Nós continuávamos com a atividade política. Tive, nessa época, uma atuação grande na área de saneamento; tentei trazer a Associação dos Médicos Sanitaristas, o que resultou, anos mais tarde, numa aproximação importante que colocou os fundadores do Cebes dentro da Associação.

Cebes – Lá no seio, em São Paulo, vocês tinham uma vinculação estreita com o Partido Comunista, mas tinha uma base do Cebes lá. Parte do pessoal pertencia ao partido? Era uma base do Cebes dentro do partido ou era outra base? Uma base de médicos?

José Ruben – Não, não era uma base do Cebes! Eram médicos. O David liderou um processo muito grande na chamada dissidência do PCB; um feito extraordinário dele! O jornal que circulou durante um ano mais ou menos, talvez menos, chamava-se ‘A Esquerda’. Um jornal extraordinário, muito bom, em que ele fazia quase tudo. Mas nessa época, ele não estava no PT (Partido dos Trabalhadores) ainda.

Cebes – Mas havia toda a crise do partido nesse momento?

José Ruben – Sim! Com o deslocamento do Cebes para o Rio de Janeiro, os cebianos paulistas passaram a se envolver especialmente na Associação dos Médicos Sanitaristas, mais tarde na Associação Paulista de Saúde Pública, além dos movimentos médicos e outros movimentos, como eu me envolvi.

Cebes – Nos anos de 79, 80, com a mudança para o Rio, os núcleos já tinham uma expressão nacional e já desenvolviam a ideia de itinerância, ou seja, do Cebes nacional circular pelo Brasil e a revista, obviamente, acompanharia. Por outro lado, em 79 também houve uma crise financeira do Cebes em São Paulo, uma crise do movimento político. Em 84 o David sai, e com a greve do ABC, a fundação do PT, ele começa a se mexer um pouco, tornando este momento oportuno. A primeira saída do Cebes de São Paulo foi para o Rio e posteriormente para Londrina, no Paraná…

José Ruben – Em 78, nós tivemos uma atividade muito intensa no plano político. Eu representava o Cebes no Comitê Brasileiro de Anistia.

Cebes – Naquela época, no inicio, havia uma unidade muito maior porque estávamos todos contra um inimigo principal. Mas não deixava de haver conflitos de ideias, conflitos políticos sobre a direção dos movimentos, tanto que isso se expressava em diferentes partidos de esquerda ou criação de novos partidos. Dentro do Cebes, que tipo de conflito havia?

José Ruben – Nós do Cebes sempre fomos uma espécie de partido sanitário. Não importa se ali, acolá, havia, digamos assim, uma liderança mais acentuada de pessoas de extração do Partido Comunista Brasileiro, chamado PCBão. Mas nunca houve um controle de acesso em toda a história do Cebes. Lembro-me que havia colegas ligados à AP, ao PCdoB e havia, como hoje, de forma bem mais acentuada, pessoas que não tinham um perfil partidário definido. O Cebes sempre teve essa característica.

Cebes – Falo em conflito em relação a disputas acirradas em termos de estratégia política, táticas que estavam sendo adotadas pelo Cebes em relação às publicações…

José Ruben – Sinceramente, acho que não! Por exemplo, quando o David e eu selecionamos ‘Medicina e política’ como o primeiro livro da coleção, foi um caso muito pensado. Na realidade, o primeiro livro do Berlinguer que nós queríamos editar era ‘Malária urbana’, que nós já conhecíamos. ‘Malária urbana’ tinha, inclusive, tradução em espanhol. Mas, nesse processo, chegamos à conclusão de que o livro que poderia ter um alcance além da universidade era ‘Medicina e política’.

Cebes – E como foi o contato com o Berlinguer? Como vocês se conheceram e se aproximaram dele?

José Ruben – Eu não estive nessa fase prévia, porque atuei como revisor desse livro. O tradutor mesmo foi o Padre Bruno Juliani, com quem tenho uma grande amizade até hoje e que continua extraordinário como sempre foi. Hoje, ele vive na Itália e é o provincial da Ordem, ou seja, é a figura principal da Ordem dos Cônegos Regulares Lateranenses, uma das ordens mais conservadoras que existe. Mas, uma coisa é fazer parte de uma ordem conservadora e outra é ser conservador, que não é o caso de Bruno Juliani, que nunca foi conservador. Então, primeiro eu reinstalei o Centro de Saúde da Vila dos Remédios, em dependência da escola e da Paróquia Nossa Senhora dos Remédios, onde ele era o dirigente. Mas tive que convencer uns oito ou mais padres,
já que se tratava de um conselho, uma ordem, que tinha uma atividade de educação extraordinária. O Centro de Saúde da Vila dos Remédios, que instalei em 1977, existe até hoje, no mesmo lugar.

Quanto ao contato com o Berlinguer, deve ter sido propiciado pelo David, mas não me lembro dos detalhes. Lembro-me que o Berlinguer nem sabia que o livro estava sendo traduzido por um padre de uma ordem conservadora. Ele soube no dia em que chegou ao Brasil; aliás, aquela foi a segunda visita dele ao País. Ele ficou muito surpreso quando soube que o livro de um comunista tinha sido traduzido por um padre brasileiro de uma ordem tão conservadora.

Cebes – Vocês não sofreram nenhum tipo de repressão por estarem traduzindo uma obra escrita por um comunista ou as revistas do Cebes nunca foram censuradas? Houve alguma repressão sobre o trabalho do Cebes?

José Ruben – Não, nunca houve! Isso seria uma coisa tão marcante que não teria me esquecido facilmente. Acho que nós nascemos sob o signo da democracia, ajudamos a chamada redemocratização do País e acredito que estamos no caminho certo para aprofundar a democracia. Esse é o nosso grande desafio hoje, porque as coisas não estão tão democráticas assim, como deveriam estar. Houve dissensões, mas nenhuma marcante está registrada na minha memória. Todas fizeram parte da discussão política. Na última aparição pública do David, três ou quatro meses antes de sua morte, ou seja, no Congresso de Saúde Pública da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), em Salvador, ele disse claramente que é preciso que sejamos capazes de dissentir, de se opor, de ousar. Há consequências, mas se fizermos isso com honestidade, com as nossas próprias convicções, podemos romper barreiras.

Entrevista realizada em 2009, para o Projeto Memória

Veja também a entrevista de José Ruben de Alcântara Bonfim no hotsite do Cebes 40 anos